A moda perdeu um de seus pilares mais majestosos em janeiro de 2026, mas o império construído por Valentino Clemente Ludovico Garavani permanece como um monumento à elegância, ao glamour e à perfeição técnica. Conhecido mundialmente apenas como Valentino, o estilista italiano não só vestiu as mulheres mais famosas do mundo; ele definiu o que significava ser uma mulher sofisticada na segunda metade do século XX e início do XXI.
Neste artigo, veremos a jornada de um jovem sonhador de Voghera que se tornou o “Imperador” de Roma e mudou o curso da história da moda.
O Início: De Voghera para a Cidade Luz
Nascido em 11 de maio de 1932, em Voghera, na Itália, Valentino demonstrou interesse pela moda desde a infância. Ao contrário de muitos contemporâneos que enfrentaram resistência familiar, ele teve o apoio dos pais para estudar desenho de moda em Milão e, posteriormente, em Paris.
Na capital francesa, ele se formou na prestigiada Chambre Syndicale de la Couture Parisienne e estagiou em casas icônicas como Jean Dessès e Guy Laroche. Foi lá que ele refinou seu olhar para o drapeado e o luxo aristocrático, elementos que se tornariam sua assinatura. No entanto, o coração de Valentino batia pela Itália, e em 1959, ele retornou a Roma para abrir seu próprio ateliê na Via Condotti.

O Encontro com Giancarlo Giammetti
Nenhuma história de Valentino estaria completa sem mencionar Giancarlo Giammetti. O encontro dos dois em 1960, em um café na Via Veneto, mudou tudo. Enquanto Valentino era o gênio criativo, focado na estética e na perfeição da costura, Giammetti era a mente estratégica e comercial.
Juntos, eles construíram uma parceria de vida e negócios que durou mais de cinco décadas. Giammetti transformou o talento de Valentino em uma marca global, permitindo que o estilista se concentrasse exclusivamente na beleza.

A Explosão nos Anos 60: O Branco e o Vermelho
O reconhecimento internacional veio em 1962, após um desfile triunfal no Pitti Palace, em Florença. Mas foi em 1968 que Valentino cimentou seu nome na história com a “No-Color Collection” (Coleção Sem Cor), composta inteiramente por tons de branco, creme e marfim. Em uma época dominada pelas cores psicodélicas dos anos 60, a pureza monocromática de Valentino foi um choque de sofisticação.
Foi nesta mesma coleção que ele desenhou o vestido de renda branca para o casamento de Jacqueline Kennedy com Aristóteles Onassis. Jackie se tornou sua cliente mais fiel, ajudando a projetar a marca Valentino como o ápice do luxo global.
O Vermelho Valentino (Rosso Valentino)
Se existe uma cor que pertence a um homem, é o “Vermelho Valentino”. Inspirado por uma noite na ópera de Barcelona em sua juventude, onde viu mulheres vestidas de vermelho vibrante, Valentino decidiu que sua marca teria seu próprio tom de escarlate — uma mistura precisa de 100% de magenta, 100% de amarelo e 10% de preto.

“Uma mulher vestida de vermelho está sempre certa. É uma cor forte, mas ao mesmo tempo é o símbolo da feminilidade absoluta.” – Valentino Garavani.
O Estilo: Feminilidade sem Compromissos
O impacto de Valentino na moda pode ser resumido em uma palavra: Beleza. Ele nunca foi um estilista da “vanguarda” ou do “choque”. Sua missão era fazer com que as mulheres se sentissem belas, ricas e imponentes.
- Cortes Impecáveis: Seus vestidos seguiam as linhas do corpo sem serem vulgares.
- Detalhes Artesanais: O uso de rendas, bordados minuciosos e laços tornou-se sua marca registrada.
- Glamour de Tapete Vermelho: Ele foi o pioneiro em entender o poder das celebridades. De Audrey Hepburn e Sophia Loren a Gwyneth Paltrow e Julia Roberts (que recebeu seu Oscar em 2001 usando um Valentino vintage), o estilista dominou Hollywood por décadas.
A Marca e a Expansão do Império
Sob a gestão de Giammetti, a marca Valentino expandiu-se para além da Alta-Costura (Haute Couture). O império passou a incluir:
- Prêt-à-Porter: Versões luxuosas prontas para vestir.
- Valentino Garavani: A linha de acessórios, famosa mundialmente pelas bolsas e sapatos da coleção Rockstud.
- Perfumes e Linhas de Difusão: Levando o estilo Valentino para um público mais amplo.
Em 1998, a empresa foi vendida por centenas de milhões de dólares, mas Valentino e Giammetti permaneceram no comando criativo e executivo por mais uma década, garantindo a transição suave para a modernidade.
A Aposentadoria e o Legado
Em 2008, Valentino despediu-se das passarelas com um desfile histórico no Museu Rodin, em Paris, onde dezenas de modelos desfilaram vestidos idênticos no tom exato de Vermelho Valentino. Foi o fim de uma era: o último dos grandes estilistas que fundaram suas próprias casas de costura e as transformaram em impérios globais estava se retirando.
Mesmo após sua saída, a Maison Valentino continuou a florescer, primeiro com a dupla Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli, e depois com Piccioli em carreira solo (e mais recentemente com a entrada de Alessandro Michele). Todos eles mantiveram o DNA de romance e elegância que Valentino estabeleceu.

Para quem deseja entender a personalidade por trás da marca, o documentário Valentino: The Last Emperor (2008) é essencial. Ele mostra o perfeccionismo obsessivo do mestre, sua relação com os pugs de estimação e a simbiose inquebrável com Giammetti.
Valentino Garavani não sobreviveu às tendências; ele as ignorou em favor de uma elegância atemporal. Em um mundo da moda que frequentemente busca o estranho e o disruptivo, Valentino defendeu o clássico.
Sua morte em 2026 marca o fechamento definitivo do livro de ouro da Alta-Costura do século XX. No entanto, sempre que uma mulher atravessa uma sala usando um vestido vermelho perfeitamente cortado, o espírito de Valentino Garavani está presente. Ele nos ensinou que a beleza não é só estética, mas uma forma de respeito pela arte da vida.
